Frida – um olhar de gênero

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Valéria Vilhena

Mario Sérgio de Santana-

No distante janeiro de 1941, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados através do pastor Samuel Nyström sobre o precoce falecimento, aos 49 anos, da missionária sueca Frida Strandberg, viúva de Gunnar Vingren, um dos fundadores das Assembleias de Deus no Brasil.

Nyström, em seu texto, enaltece as virtudes da missionária. Segundo ele, Frida era talentosa, criativa, dedicada e carismática. Como ninguém “sabia cativar os que a ouviam” – destacou. Mas, em meio a tantos elogios, Samuel fez uma ressalva: “A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil…”.

Eufemismos, que estudos recentes sobre a história das ADs revelam ter sido na verdade, uma grande batalha e disputa pelo poder dentro da denominação. Frida, não se contentou em ser simplesmente uma esposa “bela, recatada e do lar” ou assumir destacado papel de assistente social.

Ela foi e queria ser muito mais do que isso. E por essa razão, atraiu sobre si a indignação e o repúdio de homens não preparados para ver (e aguentar) a ascensão de uma mulher líder, atuante e com capacidade de argumentar teologicamente contra eles.

Defendida recentemente, a tese de doutorado de Valéria Vilhena intitulada Um olhar de gênero sobre a trajetória de vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940), é uma importante contribuição para entender quem foi a esposa de Gunnar Vingren e as razões do seu esquecimento durante décadas na história das ADs.

Ultimamente, Valéria têm se tornado conhecida em suas posições polêmicas e por questionar à igualdade de oportunidades e à violência contra as mulheres nas estruturas religiosas. Ou seja, não reza pela cartilha do politicamente correto do mundo evangélico em geral. Sua tese é de uma militante feminista cristã; ainda que para muitos isso seja extremamente contraditório.

Por esse motivo esclarece a autora: “Um dos objetivos deste texto é avaliar, à luz da perspectiva de gênero, a trajetória de Frida, e a pressão que sobre ela foi feita num contexto de dominação masculina que atingiu as demais mulheres assembleianas”. A instituição que permitiu a jovem missionária se destacar em meio a tantos líderes, hoje mitificados pela história oficial, também anulou sua vida e ministério.

Com excelente bibliografia e, principalmente, com acesso as cartas trocadas entre os missionários suecos, Vilhena discorre sobre a ascensão e o planejado esquecimento de Frida, um “símbolo da resistência ao sentimento de obsessão de dominação de pastores suecos e pentecostais”.

Não é muita leitura fácil para os que estão habituados às hagiografias dos missionários escandinavos. Nas cartas exploradas para a tese, transparece toda a humanidade desse senhores, vultos da ADs e mitos da igreja. Mas é necessário mergulhar nessa face desconhecida da história e compreender, que a história dos mitos assembleianos é carregada de dramas e paixões terrenas.

Para Valéria, Frida não é uma santa, mas sim um ser humano, uma mulher lutando por seu espaço na igreja dentro de um forte contexto social. Como reconheceu seu maior algoz, ela possuía uma “impetuosidade” desafiante para os pastores da época e um desejo enorme de cumprir sua missão no Brasil.

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Fontes:
VILHENA, Valéria Cristina.Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1941.

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