Instrumentalização entre religião e política: opressores x oprimidos

 

Displaced people from minority Yazidi sect, fleeing violence from forces loyal to Islamic State in Sinjar town, walk towards Syrian border, on outskirts of Sinjar mountain

RIO DE JANEIRO

CONIC/ALC

O ano de 2015 inicia com traços marcantes do fortalecimento dos fundamentalismos políticos e religiosos em diferentes países. Os recentes acontecimentos da França trazem à tona outros massacres que ocorrem há bastante tempo, mas que têm pouco destaque na imprensa.
São altos os números de refugiados em consequência dos conflitos que ocorrem da Nigéria, Síria, Palestina e outros países. A insensatez humana e uma geopolítica que tem como objetivo central atender aos interesses capitalistas têm desalojado grupos minoritários como os yazidis. Neste sentido, a religião tem sido um instrumento eficaz para legitimar o poder de uns sobre outros.
A história dos yazidis
Os yazidis formam uma minoria religiosa de cerca de 800 mil pessoas. Seguidores de uma religião sincretista, muitos foram obrigados a abandonar suas casas, em agosto de 2014, quando houve um massacre na cadeia de montanhas do Sinjar, região que fica entre a fronteira do Iraque com a Síria.
Eles tiveram que fugir quando ficaram encurralados após ataques do grupo extremista Estado Islâmico (EI). Quem sobreviveu, e conseguiu escapar da região tomada pelos jihadistas sem deixar o país, está hoje no Nordeste do Iraque ou na periferia de Irbil.
O EI admitiu, na revista “Dabiq” — publicada pelo grupo para propagar suas ideias — que mulheres e crianças yazidis capturadas no Norte do Iraque são entregues como escravas para os seus combatentes como “prêmios de guerra”. Segundo os extremistas, o princípio da escravidão está baseado em preceitos religiosos.
Segundo a ONU, é preciso fazer mais para ajudar a minoria. Marzio Babille, representante do Unicef no Iraque, afirmou que os yazidis estão em uma situação extremamente precária devido aos militantes do Estado Islâmico, que são “muito agressivos e brutais”.
Babille disse também que há muitas “dificuldades logísticas e estratégicas” e acrescentou que é necessário estabelecer um corredor para a entrega de ajuda humanitária para este grupo.
Por que são perseguidos?
Os yazidis são difamados e perseguidos por serem considerados “adoradores do diabo”. Isso porque os extremistas sunitas entendem que o nome Yazidi vem de Yazid ibn Muawiya (647-683), o segundo califa da dinastia Umayyad, que era profundamente impopular.
Entretanto, pesquisas mostram que, na verdade, o nome Yazidi tem origem diferente. Este nome é originário da palavra persa modernaized que significa “anjo ou divindade”. O nome Izidis significa, portanto “Adoradores de Deus”, que é como os yazidis se descrevem.
Muitas das crenças dos Yazidis são originárias do cristianismo. Eles reverenciam tanto a Bíblia quanto o Alcorão. No entanto, grande parte da sua tradição é oral.
Por causa das perseguições, esta minoria diminuiu consideravelmente, assim como outras minorias religiosas da região, entre elas, os druzos e alauítas.
Perseguição também aos cristãos
Assim como os Yazidis, cristãos também são perseguidos. De acordo com o arcebispo da Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia no Brasil, Mor Tito Paulo George, as comunidades cristãs na Síria vêm sofrendo grandes perseguições e dificuldades, que em alguns casos particulares, são menos graves, porém sempre na iminência de um agravamento da situação. “Especialmente na Síria e no Iraque, os radicais muçulmanos, por conta de seu fanatismo religioso, pretendem dizimar a herança e o legado cristão dessas regiões, acabando com suas comunidades e expulsando os cristãos de seus locais de origem, onde os cristãos já estavam mesmo antes do islamismo existir”, afirmou.
“Há alguns meses, dois bispos ortodoxos foram sequestrados e, infelizmente, até hoje não há notícias de seus paradeiros ou se ainda estão vivos. Um grande número de famílias cristãs precisaram fugir para outros países, como o Líbano, devido à perseguição religiosa e aos assassinatos constantes promovidos por esses terroristas. Em muitas localidades, nossas Igrejas, santuários e mosteiros foram atacados ou totalmente destruídos, como é o caso de cidades como Der-alur, Sadad, Maaloula, Alepo e Homs, além do fato da pobreza e da miséria ter se espalhado por essas cidades devido à destruição causada, o que consequentemente gera crise financeira e de abastecimento para as pessoas”, completou Mor Tito.
E o Conselho Mundial de Igrejas, o que diz?
Para o CMI, é imprescindível que o respeito à liberdade religiosa seja tratado como um direito humano inerente e um pré-requisito fundamental para o progresso democrático e pacífico da sociedade. Na avaliação do Conselho, “quando a religião é usada para ganho político, as relações entre as diferentes comunidades religiosas tornam-se cada vez mais afetadas pelas mudanças na política local e nacional. Esta tendência também acrescenta razões para as pessoas de diferentes religiões pensarem em termos limitados acerca dos sentimentos religiosos e considerarem que a sua religião é mais importante do que a dos outros”.
“A liberdade religiosa não existe sem igualdade e justiça. Não pode haver verdadeira liberdade sem igualdade e não pode haver igualdade sem a inclusão potencial e participação de todos os cidadãos em qualquer sociedade”, afirmou o coordenador do escritório do CMI junto à Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, Rudelmar Bueno de Faria.
Impactos deste conflito para o Brasil
Pode-se pensar que o Brasil seria pouco ou nada afetado por conflitos tão distantes, já que nosso país é distante da Síria, da Palestina da Nigéria ou do Iraque. Entretanto, esta compreensão é equivocada. Os conflitos geram um alto índice de refugiados para cá, são pessoas que fogem da guerra em busca de paz.
Segundo o relatório Refugiados– análise estatística, existem aqui 7.289 refugiados de 81 nacionalidade, sendo que 1.524 são sírios, que vêm para cá por causa de suas raízes familiares e por identificarem no Brasil uma terra de oportunidades que tem um povo que recebe bem os estrangeiros.
Na opinião da secretária-geral do CONIC, Romi Bencke, “aprofundar os mecanismos que garantam o compromisso de liberdade e o respeito aos direitos humanos – de modo a garantir marcos estratégicos capazes de fortalecer a proteção aos refugiados – será um desafio cada vez maior”.
Entrevista com o embaixador da Síria no Brasil
Para tentar aprofundar um pouco mais a temática o CONIC conversou com o embaixador da Síria no Brasil, Ghassan Nseir. Terra em que vive boa parte dos yazidis, o país vive uma guerra civil desde 2011, fato que tem acarretado inúmeros desrespeitos aos Direitos Humanos, bem como a perseguição de minorias.
1. Quem são os Yazidis?
Os Yazidis são um grupo religioso, que vivem no Iraque e na Síria e que possuem alguns grupos espalhados pela Turquia, Alemanha, Geórgia e Armênia. Alguns acreditam que a religião originou-se das antigas religiões da babilônia, prevalecentes na Mesopotâmia, e foram influenciados pelo ambiente da diversificação cultural dos árabes, assírios e siríacos, além, de terem seus rituais próprios. Os Yazidis que vivem na Síria são tratados como qualquer cidadão sírio, protegidos pelo Estado secular da Síria, sem sofrer discriminação que se baseie em raça ou religião.
2. Por que o EI ou Estado Islâmico está perseguindo esta etnia de forma tão brutal?
A resposta para esta pergunta está condicionada ao próprio EI, que tem derramado o sangue de todos os que não seguem o seu pensamento, ora sob a acusação de divergências religiosas, ora sob a acusação de lealdade ao regime. A lista de crimes do EI é muita extensa e não há como se salvar.
Como afirmou o relatório de Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito sobre a Síria, apresentado ao Conselho de Segurança, o EI não poupa mulheres, nem crianças e nem ninguém. Ou ele os pune, ou os vende, assim como vende qualquer coisa que possa garantir o financiamento de seus atos terroristas, desde o roubo do petróleo, a apreensão de propriedades públicas e privadas, a destruição do patrimônio cultural, até a venda de mulheres, já que esta organização não possui quaisquer tabus e conta com a conivência de alguns países que a patrocinaram, em especial a Turquia, a Arábia Saudita e outros países da região, além do patrocinador principal, os Estados Unidos, que a criou assim como criou o seu predecessor, a Al Qaeda.
3. O que o governo sírio está fazendo para conter o avanço do EI?
O governo sírio está lutando para defender sua pátria, a Síria, o seu Estado e seus cidadãos, onde quer que estejam, de todas estas frentes que se abriram, seja qual for o seu slogan, sendo o mais enganoso dos slogans a chamada ‘primavera árabe’, que sob o pretexto de buscar por justiça, destruiu o país e o povo, atingindo a sua segurança, a segurança de suas mulheres e crianças e de todos os seus componentes.
O Exército Árabe Sírio está defendendo o seu país e conta com o apoio do povo sírio, assim como conta com o apoio dos verdadeiros países amigos da Síria e não aqueles que falsamente alegam ser amigos da Síria.
A resistência da Síria, pelo quarto ano consecutivo, contra esta agressão, da qual o EI constitui uma parte, é a maior prova da coesão do povo da Síria, juntamente com o exército e com o Presidente Bashar al-Assad, o qual foi eleito pela maioria dos sírios ao concorrer com outros três candidatos. A luta da Síria não é só contra o EI, mas contra todos aqueles que tiveram participação na criação do EI e contra as forças que quiseram o mal, a divisão e a troca do sistema de governo na Síria, utilizando-se dos mais diferentes argumentos e slogans enganosos. É uma guerra contra todos aqueles que querem se apossar das capacidades e da vontade do povo.
4. Seria a comunidade internacional uma parceira da Síria nesta luta contra o EI, apesar desta mesma comunidade internacional ter tentado derrubar o presidente Bashar al-Assad, armando grupos terroristas?
Devemos examinar o termo “comunidade internacional”. Se o pretendido com esta expressão é dizer que a maioria dos países representa a legitimidade e o direito internacional, com suas ações, não com suas palavras, então a resposta é sim. Mas se o pretendido é dizer que as grandes potências, que tentam vender a imagem de que são a comunidade internacional, à exemplo dos Estados Unidos e da União Europeia, então a resposta é outra, porque estas grandes potências, especialmente os Estados Unidos da América, criaram as condições para a presença do EI na Síria. O EI é uma versão atualizada da Al Qaeda criada no Afeganistão. A distribuição de papéis foi a mesma em ambos os casos e os Estados Unidos supervisionaram de forma direta e usaram, principalmente, a Arábia Saudita para financiar e executar o processo de atração do maior número de mercenários para formar o EI e outras forças e grupos terroristas armados, com a participação do Qatar e da Turquia. Todos eles se uniram contra a Síria, em uma ofensiva contra os territórios, a segurança, o povo e contra um Estado membro das Nações Unidas, o que contraria o Direito Internacional baseado nos princípios da Carta das Nações Unidas.
5. Como será o futuro da região, caso cresça a força do EI?
Assim como os Estados Unidos destruíram o Afeganistão, ao longo de décadas e sob os nomes da Al-Qaeda e da luta contra o ateísmo, a Arábia Saudita está patrocinando esta guerra através do recrutamento de mercenários que ficaram conhecidos como os afegãos árabes.
Agora estes dois países – os Estados Unidos como potência e a Arábia Saudita como financiador e patrocinador destes grupos terroristas takfiristas armados com a ajuda direta de países como o Qatar e a Turquia – estão tentando formar, financiar e trazer mercenários terroristas armados para se juntarem aos grupos terroristas takfiristas, tais como o EI, a Frente Al Nusra e outros.
 Seja qual for o nome dado a estes grupos, eles os usam para destruir a região, para minar a sua segurança e alterar a composição do mosaico da área, formado de diferentes religiões, raças e credos, que sempre coexistiram em virtude desta ser uma das áreas mais antigas regiões habitadas e construídas pelo homem, por onde passaram as civilizações, deixaram sua marca e lá permaneceram os seguidores de cada religião ou doutrina, os povos e as pessoas das mais diferentes raças. Podemos dizer que os povos da região não tentaram aniquilar um ao outro desta forma tão brutal a que são expostos atualmente, em virtude desta ofensiva liderada pelos Estados Unidos e patrocinada pela Arábia Saudita, controlado pela família real saudita, e com a participação do Qatar e da Turquia, esta última governada pelo Partido da Justiça e Desenvolvimento, que apoia os fanáticos da Irmandade Muçulmana, rejeitados pelo restante da região desde o final do século passado.
[Neste sentido], quando uma organização terrorista se torna fortalecida e dominadora, seja esta ou qualquer outra, independentemente da nomenclatura, não poupará ninguém da região que cair sob o domínio dos grupos terroristas. Isto será como um terremoto devastador para a região como um todo, que minará a sua estabilidade e não poupará nenhum destes que acreditam que controlam o destino dos povos […]. Nenhum destes que contribuíram para inflamar ainda mais a região sobreviverá.
7. Quais são as suas perspectivas para esta guerra?
A Síria está marchando, ombro a ombro, com o seu povo, o seu exército e com o representante de seu povo, que é o seu governo, liderado pelo Presidente Bashar al-Assad, democraticamente eleito, para enfrentar e resistir a esta guerra, para proteger a nossa pátria Síria e tudo o que o nosso povo se habituou a ter em termos de convivência e amor e para restaurar a paz e a segurança, um dia consideradas exemplares na Síria.
8. Finalmente, qual é a mensagem ou apelo que o senhor deixa para as igrejas brasileiras diante deste cenário? 
Antes desta guerra que tem sido travada contra a Síria, sob slogans enganosos, viviam na Síria os seguidores das mais diferentes religiões e raças, cidadãos sírios iguais em direitos e deveres no âmbito de um Estado laico. Seu povo surgiu e cresceu sem olhar para as diferenças religiosas e étnicas. O cidadão sírio, que vive dentro das áreas controladas pelo governo da Síria e do Exército árabe da Síria, foi e continua sendo tratado como cidadão, sem levar em conta a sua etnia, a sua religião ou a sua seita.
Uma rápida olhada nos Relatórios sobre o Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, na comparação anual, mostram como era a situação na Síria antes e depois da guerra, como a saúde e a educação eram e são gratuitas para sírios e como os serviços de infraestrutura estão disponíveis para um amplo espectro da sociedade, como o nível de pobreza é baixo na Síria, apesar do modesto PIB, e como os seguidores das mais diferentes religiões não eram tratados como minorias no âmbito da República Árabe da Síria.
As igrejas cristãs devem estar cientes de que o cristianismo veio de Damasco e que O Senhor Jesus caminhou sobre seu solo, um filho da Síria natural, e que as sedes de várias igrejas estão em Damasco.

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