Câmara comandada por condenados, com liderança evangélica

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BRAZIL

Antonio Carlos Ribeiro (*)

A Câmara dos Deputados passou a ser dirigida por políticos cuja biografia é marcada por ‘conflitos com a lei’ e condenações da Justiça. A aplicação indevida da Lei da Ficha Limpa e os recursos jurídicos que inviabilizam sua aplicação permitiram que dezenas de políticos fossem eleitos pelo povo, e depois por seus colegas. A novidade é a liderança de um evangélico.

Quatro fatos devem provocar a reflexão dos eleitores religiosos. O primeiro, é que este é o perfil de oito dos 11 membros da diretoria da Câmara, dos quais quatro já condenados. O segundo, é que o primeiro da lista é o Deputado Eduardo Cunha, eleito presidente. O terceiro escândalo, é que as fichas criminais podem ser comparadas a ‘currículos’ que provocam inveja até em presídios de alta periculosidade. E o último, que as condenações começam nos Tribunais de Contas.

Comecemos pelo mais suave. Se 57% dos deputados federais têm desvio de conduta na gestão de verbas públicas, como puderam concorrer mais uma vez a funções públicas, especialmente a mais visada, a legislativa? Se os eleitores compõem a mesma população que reclama da qualidade de diversos serviços públicos, como eles chegaram a essas funções, que demandam registro em partido político, eleição em pleito público e – mesmo que pela primeira vez – diplomação pela Justiça.

Se os crimes praticados por esses senhores e senhoras os inabilitam para a função pública, como são entendidos como habilitados para atuar na elaboração de leis. Se instituições da sociedade – incluídas as igrejas – podem apoiar quem foi condenado por comprar votos, lavar dinheiro, fraudar licitações, explorar trabalho escravo, entre outros crimes, como se explicam? Têm consciência que comprometem a própria imagem, ou pior, do serviço que prestam? No caso de igrejas e entidades religiosas, da missão de que se dizem portadoras?

Compra de votos – crime pelo qual Eduardo Cunha foi condenado – tem como punição a perda de mandato, mas a Justiça, em nome da sociedade, aceitou a ‘esmola’ do pagamento de uma multa, deixando o criminoso solto para a ascensão à Legislatura nacional. E os evangélicos que lhe confiaram o voto, como respondem a isso? A lentidão e corrupção da justiça é a outra parte, especialmente quando a sentença sai após o cumprimento do mandato conseguido por crime.

Há quem responda a inquéritos por lavagem de dinheiro, desvio de fundos de pensão e captação ilícita de recursos, tentações grandes para quem não tem formação, nem gosta de trabalhar ou simplesmente queira usar o serviço à sociedade para enriquecer – como o vice-presidente eleito – especialmente em mais mandatos, que classificam como ‘desgastantes’. E quem sofre inquérito por crimes contra a ordem tributária? Há concessionária de sinal de TV que deve até R$ 2,1 bilhões!

Há quem abusa da ‘imunidade parlamentar’, na interpretação da regra e na capacidade de apropriação indébita, conquistando o perfil de criminoso ‘respeitável’, como o primeiro-secretário Beto Mansur, condenado em três ações, réu em outras duas, listado em três inquéritos e com contas irregulares e reprovadas no Tribunal de Contas de São Paulo.

Outros cometeram crimes julgados menores, mas cuja ‘atenuação’ por critérios judiciais acaba por expor a sociedade a esse caudal de misérias morais, que se juntam à cultura política e jurídica do nosso país. O mais grave e inaceitável é que esses nomes tenham sido sacramentados por veneráveis instituições religiosas, respeitabilíssimos conchavos clericais e colendos grupos de religiosos-empresários-donos de mídia de alta popularidade na população mais simples.

A razão que ‘força’ o fim da ‘reflexão’ não é a lista de crimes contra o erário, o furto de recursos dos serviços públicos ou a retroalimentação da bacanal dos poderosos inatacáveis. Mas o conflito de um pastor batista negro – mormente em ambientes racistas imorais, perdão pelo pleonasmo – ao lembrar Lord Acton: “Toda forma de poder, corrompe. E toda forma de poder absoluto, corrompe absolutamente”. E dizer isso no sermão “É meia-noite”, como fez Martin Luther King.

Após o fim da reflexão a que me forço, sugiro a continuação pelos leitores. Só os honestos.

* Jornalista, professor universitário e pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

AGEN Agência Evangélica de Notícias

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