Estrangeiros e Peregrinos

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Oneide Bobsin, ALC Noticia

O mundo nunca teve tantas pessoas morando fora de seus países de origem. A ONU estima em 160 milhões nessas condições. São várias as razões das migrações. A busca de trabalho, a fuga em razão de perseguições políticas e religiosas, conflitos violentos entre etnias de um mesmo povo, falta de liberdade políticas, problemas climáticos. Semanalmente vemos o drama de milhares de pessoas que se arriscam  mar afora em busca de um lugar na Europa.

As migrações extra-regionais na América Latina e no Caribe deslocam pessoas entre países e regiões de um mesmo continente. Migrantes cruzam as fronteiras limítrofes quando os países são vizinhos. Uma forte tendência das migrações de nosso continente relaciona-se ao contingente feminino. Em 2005, segundo a ONU, mais de 50% eram mulheres. Como podemos ver, as migrações se constituem um fenômeno total, abrangendo uma diversidade de aspectos e sentidos.

Dentre estes há um que diz respeito à nossa fé, em razão da forma como se acolhe um peregrino ou estrangeiro. A crescente presença de haitianos e africanos no Brasil, por exemplo, num momento de crescente desemprego torna a acolhida mais problemática. Aqui e ali se percebe um clima de suspeita que dificulta a aceitação das pessoas estrangeiras, ainda mais se forem pobres e negras. Já ouvimos dizer que entre tais migrantes estão espiões estrangeiros que querem introduzir ideologias estranhas. Portanto, como evitar que emigrantes se tornem bodes expiatórios de certas situações sobre as quais nada incidem?

Para as igrejas cristãs e seu povo fiel, o assunto das emigrações não é estranho. Logo nos primeiros capítulos da Bíblia, em Gênesis 12, Deus chama Abraão a deixar seus parentes e sua casa e ir para uma terra onde se tornará um grande povo. É um convite divino que motiva a busca da terra prometida. Mais tarde, o povo é lembrado por Deus a olhar para os estrangeiros e peregrinos que vivem em seu meio com amor: “amá-lo-eis como a vós mesmos, pois estrangeiros fostes na terra do Egito (Lev. 19, 34.). Tal exortação divina se sustenta  na premissa de que a terra pertence a Deus, sendo seus moradores estrangeiros e peregrinos (Lev. 25, 23). Deus é seu proprietário, impedindo-a de ser vendida. Em outras palavras, a terra não é mercadoria.

Esta visão perpassa a Bíblia. Em Hebreus 11, 19 Abraão é anunciado como alguém que peregrinou em terra alheia, habitando em tendas, como herdeiro da promessa. Portanto, somos todos peregrinos e estrangeiros, filhos e filhas de Abraão.

Quem professa esta fé peregrina e estranha vai receber bem os e as estrangeiras/as que aportarem em nossas pátrias. Amá-los como a si mesmo, é o mandamento divino atualizado por Jesus ao dar sua vida por todos, e que precisa urgentemente ser traduzido em políticas públicas.

Autor e doutor em Sociologia, professor de Ciências da Religião e reitor da Faculdades EST.

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