Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

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Por Oneide Bobsin para ALC

Os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, ocorridos recentemente na cidade brasileira de Palmas, capital do estado de Tocantins, encerrou no dia 2 de novembro, dia de Finados, quando lembramos de nossos mortos.

A coincidência de datas permite buscar na história dos povos originários e tradicionais outras motivações para jogos que não a competição com poucos vitoriosos e uma maioria derrotada. O antropólogo Lévi-Strauss via no futebol entre os índios Fox um rito funerário.  O time que representava o morto jogava com o time dos vivos, com a condição que o primeiro sempre fosse o vencedor, a fim de que a alma do falecido pudesse partir em paz para o além.  Estando, pois, em paz no outro mundo, o morto se transforma num espírito protetor.

O mesmo antropólogo cita um outro caso da prática do futebol na Nova Guiné. Tendo aprendido o futebol competitivo com os ocidentais, os povos de lá inverteram as regras, permitindo que jogo terminasse empatado. Não havia vitorioso nem perdedor.  Segundo o sociólogo José de Sousa Martins, os índios Xerente do Brasil central assimilaram o futebol dos brancos jogando com um time só. Todos disputam a bola entre si para fazer o gol. Estas e outras tantas experiências são contadas e analisadas pelo professor e músico José Wisnik, em Veneno Remédio.

O I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas intercalou jogos cooperativos e competitivos. Não faltou o futebol masculino e feminino jogado segundo as regras de nossos campeonatos.  Contudo, em lugar das camisetas de nossos clubes, cada equipe das aproximadamente 30 etnias de mais de vinte países vestiu seus trajes típicos de longas gerações. Os jogos reforçaram as tradições de cada povo, ressaltando os seus aspectos profundamente comunitários.

Neste espírito colaborativo os esquemas de jogos foram flexíveis. Quando a Câmara de Deputados, em Brasília, retomou os debates sobre quem deve demarcar uma área indígena, o torneio parou por um determinado tempo. Com isto índios e índias de outros continentes puderam se envolver, bem como a cobertura de mais de 300 jornalistas, num debate nacional. Os povos indígenas do Brasil temem que os deputados, em grande parte liderada pelos representantes dos latifúndios, retirem esta prerrogativa da Presidência da República. Com isto a demarcação de terras para os povos indígenas ficaria praticamente inviabilizada.

Logo, diferentes de nossos campeonatos profissionais que visam à competição e o lucro tão-somente, os jogos indígenas se ocuparam com assuntos que os fazem sofrer. Pudemos ver também as mulheres indígenas promovendo debates para tratar de assuntos relativos à saúde precária de seus povos, denunciando o descuido da saúde pública. Ao mesmo tempo, não faltou desfile para a escolha das mulheres mais bonitas. Enquanto as mulheres de outras etnias, de clima mais frio, desfilavam com suas roupas cobrindo o corpo sob sol de mais de 30 graus, as indígenas brasileiras andavam pelas “passarelas” com seus pequenos trajes, expondo o corpo.  Mais uma vez a diversidade superou a uniformidade da escolha de nossas misses.

Lamentavelmente, a grande mídia não fez uma ampla cobertura dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Esperamos que a segunda edição, no Canadá, de onde veio uma grande comitiva, possa mostrar ao mundo que a solidariedade dos povos deve estar acima da competição.

A inversão das regras dos jogos nos esportes, na política e na economia afronta a ideologia de nosso sistema capitalista, que justifica muitos perdedores e uma minoria vencedora.  Mas tem afinidade com a dinâmica do reino de Jesus, onde o maior é aquele que serve (Lc 22,26) e onde os últimos serão primeiros.

 

 

 

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