Que redenção e esperanças embalem a resistência em 2017

(Koinonia)

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Editorial da Koinonia Presença Ecumênica:

Imagine. Gente antepassada olhando o que acontece ao nosso redor.
Lutadoras por igualdade, pelo fim do racismo, por crianças bem tratadas e brincando, por mulheres felizes e nunca espancadas, por uma harmonia com tudo que há na natureza e tantas outras causas comuns, nossos bens.Gente que viveu pelo cuidado, da outra, parente ou não, uma irmandade só.
Se ante aqueles olhares antepassados não daria vergonha de mostrar o ano de 2016, com tudo que nele já se desfez: eleições violentadas, regras do Estado quebradas e os direitos conquistados e escritos na Constituição de 1988, progressivamente retirados. E de como não teria jeito de explicar sem vexame tanta violência: assassinatos diários de jovens negros, mortes diárias de mulheres… E o desespero pelo que pode vir como um grande atropelo sobre os que vivem no mundo rural – expulsões, truculência em mais vidas ceifadas.

Imaginando assim, conforta um pouco saber que não somos responsáveis por tanto desmando e crueldade. Nem todo mundo é responsável, pelo menos. Sabemos quem está no poder, quem segue insensível e mentirosamente tomando decisões contra a população já tão vulnerável antes e mais ameaçada agora.

Os povos e comunidades negras tradicionais seguem sua sina de lutar a cada dia para sustentar um direito. Os terreiros, seus filhos e vizinhos não são poder. Não teriam, imaginando do que se envergonhar.
As crenças e heranças de matriz africana dialogariam, como sempre, com a gente ancestral. Como antes, mais que nunca agora, transformando em rito o ciclo mais precioso que se aprendeu: primeiro as reverências à ancestralidade, depois o respeito e harmonia com a natureza e suas forças vivas e encantadas, celebrando com todo bem consagrado, com alimentos para a comunidade, para a terra e os encantados, compartilhando com os convidados para encerrar, com todas as reverências e escuta, a expressão sagrada das crianças, a magia da infância.

No ciclo: ancestrais, natureza, encantados, celebração com o retorno à infância tudo será redimido.

Assim se vê de que lado estamos nas reflexões, atos e evocações pela igualdade antirracista. Promovendo junto com mulheres negras, compartilhando orientações sobre cidadania dos terreiros entre tantas ações sem deixar de orar juntos pelas crianças negras – em sintonia com o mundo.

Dentro do mesmo ciclo que irá nos redimir das fúrias de 2016, para um 2017 cheio de esperanças e solidariedades, mesmo que na resistência.

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