Os evangélicos e a educação

Damares Alves, Ministra educação (El Comercio)

 

Magali do Nascimento Cunha-Carta Capital-

A intensa visibilidade de grupos evangélicos no Brasil do tempo presente, especialmente neste 2019 em que ocupam espaços no governo federal, tem causado incômodo em vários grupos pertencentes ao próprio segmento religioso.

Quem está em evidência é fonte de várias controvérsias: cruzadas religiosas com fixação na moralidade sexual conservadora, lideranças agressivas, promotoras de intolerância, práticas políticas reacionárias, fisiológicas e corporativistas, ocupantes de cargos públicos que não só demonstram limitações e despreparo, mas ganham destaque por declarações que são disparates incompatíveis com a função assumida.

Grupos evangélicos que não compactuam com tais posturas se indignam e sentem-se injustiçados com a imagem negativa construída predominante em torno deste segmento religioso.

Questiona-se a homogeneização no tratamento do grupo como “os” evangélicos. Discute-se ainda o porquê das alternativas a este tipo de visão religiosa serem invisibilizadas e silenciadas nos espaços públicos.

Um dos caminhos para a superação desta questão é um mergulho na memória. Ela é capaz de ressuscitar esperanças mortas e subverter o caos, dizia o teólogo de origem presbiteriana Rubem Alves.

Erasmo Braga, um pioneiro

Podemos começar com a evocação da Avenida Erasmo Braga, um espaço importante do centro da cidade do Rio de Janeiro, que tem o nome de um líder evangélico.

Nascido em 1877 e criado na Igreja Presbiteriana, Erasmo Braga decidiu estudar Teologia aos 16 anos. Tornou-se pastor e professor. Imerso em causas sociais, cobriu lacunas no ensino primário e no secundário com aulas de Química, História e Música. Atuava como jornalista e ajudou a fundar, em 1899, a Academia Paulista de Letras.

Em 1903, Braga associou-se na criação da Sociedade Científica de São Paulo. Nos anos 1910, produziu a obra que lhe trouxe notoriedade no País: o famoso conjunto de livros para as quartas séries primárias, intitulados “Série Braga”. Em 1930, o pastor participou da comissão que assessorou o governo brasileiro na reforma educacional. Seu nome foi dado a escolas e institutos culturais espalhados pelo Brasil.

Educação sem discriminação

Sim, os evangélicos tiveram e ainda têm um papel destacado no processo educacional brasileiro. Presbiterianos, batistas e metodistas, com as escolas que fundaram na passagem do século XIX para o XX, introduziram no Brasil a coeducação, contra a tradição de separação rigorosa de sexos nas aulas.

E mais: o valor da educação do sexo feminino, em contraposição ao preconceito à formação das mulheres, a inovação de currículos, com ênfase na dimensão científica, contra a falta de experimentação em laboratórios dos currículos clássicos, o princípio de liberdade de religião nas escolas e contra a obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas públicas, a compreensão e a ternura nas relações entre professores-alunos, contra o autoritarismo da educação tradicionalista.

Com este projeto educacional, os colégios e universidades evangélicas atraíram as classes alta e média do País. A população empobrecida era atendida nas escolas paroquiais.

Nada relacionado ao que evangélicos em evidência no atual governo declaram projetar para a educação no País hoje. Um retrocesso incompatível com a memória da presença evangélica na educação.

Braga ganhou reconhecimento por ir ainda além. Ele tinha consciência de que tanto o individualismo quanto o sectarismo, marcas da maioria das igrejas brasileiras, são um problema para a relação com a sociedade.

Ele condenava o “eclesiocentrismo” (colocar as igrejas como a razão de ser da fé), que leva ao isolamento da religião. Conclamou as igrejas para superarem isto, relacionando-se entre si e com a sociedade, por meio da prestação de serviços às comunidades, como um testemunho de Cristo.

CEB
Foi nesta perspectiva que Braga, a partir de várias iniciativas de unidade e cooperação, idealizou a criação da Confederação Evangélica do Brasil. Sua morte prematura, aos 55 anos, em 1932, não lhe permitiu presenciar a fundação dela, em 1934.

A CEB tornou-se a principal organização dos evangélicos brasileiros por várias décadas, com desenvolvimento de projetos em várias áreas da vida interna das igrejas e da vida pública do País. A sede foi estabelecida na avenida que ganhou o nome de Erasmo Braga, no nº 277, 5º andar.

A história da CEB foi brutalmente interrompida com a perseguição aos grupos ecumênicos imposta pela ditadura.

Braga tornou-se um dos mais destacados líderes evangélicos do seu tempo, por sua capacidade de dialogar e respeitar as diferenças.

Júlio Andrade Ferreira, autor de sua biografia, escreveu que Braga viveu uma “era caótica” marcada por problemas de ordem teológica, intelectual e política e, por isto, sua vida “deveria ser uma inspiração”.

E ela o tem sido para muitas lideranças evangélicas espalhadas Brasil afora, que não têm visibilidade midiática ou evidência na política. Não cabem neste parágrafo final os tantos nomes dos “Erasmo Braga” de hoje.

É gente que continua no propósito de superar o eclesiocentrismo e tornar relevante a religião que serve, dialoga e respeita as diferenças em busca de justiça e paz. Sim, estes evangélicos existem, é só não procurar nos programas de tevê ou no governo federal.

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