O que o movimento Hare Krishna ensina sobre Jesus?

Hare Krishna (Pixabay)

CONIC– “Eu sou servo de Jesus, não tenho seus poderes” foi a resposta de Bhaktivedanta Swami Prabhupada ao jovem cristão de Melbourne, quem o desafiou a manifestar milagres semelhantes ao de Cafarnaum, ocasião em que o senhor Jesus curou um paralítico, conforme narrado nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas.

O diálogo ocorreu depois de uma palestra proferida pelo mestre dos devotos de Krishna, na Universidade La Trobe, em 1º de julho de 1974. A resposta do nosso mestre deve-se ao fato de a cultura espiritual de bhakti-yoga e a tradição vaishnava – em particular a vertente vinculada a Caitanya Mahaprabhu (1486-1534) – definirem a obtenção de amor puro pela Pessoa Suprema como a principal dádiva deixada por mestres ao longo da história da humanidade. Por isso, é possível identificar nas conclusões da literatura dos Vedas, tais como a Bhagavad Gita e o Bhagavata Purana, convergências com as instruções do senhor Jesus Cristo, nas quais ele enfatiza a importância de não blasfemar os Santos Nomes de Deus e, em vez disso, honrá-Los e glorificá-Los como o sublime processo que culmina na perfeição da existência, sumarizada em seu primeiro mandamento.

Na ciência da autorrealização, conforme Bhaktivedanta Swami Prabhupada definia o processo que consiste em restabelecer a nossa relação eterna com Deus, um princípio filosófico essencial foi definido por Caitanya Mahaprabhu e por seus primeiros discípulos, conhecidos como os 6 Goswamis de Vrindavana. Trata-se de abordar a verdade a partir de sua constituição inconcebível, por meio da qual os seres vivos são definidos como partes dotadas das qualidades de Deus, o que compreende sua união e igualdade com a Pessoa Suprema.

A diversidade que caracteriza a Causa de todas as causas da manifestação criada é a potência quantitativa. Somos, portanto, iguais e diferentes a Deus, simultaneamente. Não seria este o paradigma da igualdade e diferença nas figuras do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Somos da mesma natureza da Pessoa Suprema (Pai), seu Filho, nosso mestre, não é diferente Dele e deve ser adorado como a manifestação de Deus encarnada. O Espírito Santo, por sua vez, é a comunhão dessas duas potências sublimes, aquilo que a filosofia de Caitanya Mahaprabhu define como “verdade inconcebível”. Neste quadro, faz-se necessário mencionar que o conceito explicado com soluções aparentemente inacessíveis ao intelecto humano não é o resultado de manobras linguísticas para manipular a população em geral. Em realidade, em mais de uma ocasião, seja nas escrituras sagradas da tradição cristã ou naquelas de bhakti-yoga, toda mística concernente à Personalidade Suprema é revelada a quem atinge o estágio de amor puro por Deus. O processo é tal que parece haver, por parte da Pessoa Suprema, uma predisposição a se revelar exclusivamente por meio do amor, de maneira a transformar o inconcebível em cognoscível, algo amplamente difuso na vida de muitas personalidades santas, cristãs e vaisnavas. Em particular, duas delas estiveram presentes neste planeta no mesmo período histórico: Santa Teresa de Jesus (1515-1582) na Espanha, e Jahnava Devi – mestra dos precursores do movimento de Sri Krishna sankirtan – na Índia, manifestaram em suas vidas a mística inconcebível, o fruto maduro do amor por Deus.

Este conceito central em todas as tradições devocionais genuínas é igualmente abordado por Bhaktivedanta Swami Prabhupada em uma conversa com Monges Trapistas, quando ele pôde ter um diálogo iluminador com sinceros buscadores da verdade. Na ocasião, que ocorreu em Atlanta, em 1º de março de 1975, o nosso mestre indagava: “de que modo o corpo e sua expansão podem ser diferentes? Eles são um. Ainda assim, o filho e o pai se relacionam.” Ao que um dos monges replicou: “eles seguem sendo um.” “Sim”, concluiu Prabhupada, ao reforçar um dos princípios basilares da cultura espiritual de Krishna Bhakti no que diz respeito à relação mestre-discípulo. Referindo-se ao senhor Jesus, ele prosseguiu: “Eles são um e diferentes. Eis a real compreensão acerca da relação entre pai e filho. (…) Portanto, caso o filho em algum momento diga: ‘Eu sou um com o pai’, não há controvérsia, porque ele de fato é um em qualidade.”

Outro fator que aproxima as duas tradições diz respeito à metáfora da trepadeira do amor a Deus, narradas no Evangelho de João (cap. XV) com a parábola da Videira, por meio da qual o senhor Jesus Cristo confirma ser quem conduz exitosamente a planta de amor puro por Deus.

Na obra de Krishna das Kaviraja Goswami, a biografia de Caitanya Mahaprabhu, a mesma imagem aparece como “a semente da trepadeira do amor” (bhakti-latā-bīja), entregue às pessoas devotadas por meio da graça divina, manifesta na figura do mestre acarya, aquele que ensina pelo exemplo. É por sua graça que a semente recebe luz e solo fértil, assim como inspiração para o cultivo da trepadeira do amor.

Neste contexto, o princípio fundador da sucessão de mestres e discípulos, em nossa tradição, implica germinar a semente da planta de amor por Deus, e é por conta do lugar central ocupado pelos mestres na tradição vaishnava que Bhaktivedanta Swami Prabhupada enfatizou, em seus primeiros anos no Ocidente, que o amor a Deus dissociado do amor a Jesus Cristo é altamente contraditório a qualquer devoto de Krishna. Em Columbus, Ohio, em maio de 1969, Prabhupada disse o que segue:

“se alguém ama Krishna, deve igualmente amar o senhor Jesus Cristo. E alguém que ame Jesus Cristo perfeitamente, amará, do mesmo modo, Krishna. Se a pessoa disser: ‘Por que devo amar Krishna? Amarei Jesus Cristo’, então ele não tem conhecimento. E se alguém disser: ‘Por que devo amar Jesus Cristo? Amarei…’, então ele também não tem conhecimento. Quem vier a conhecer Krishna, terá conhecido o senhor Jesus Cristo. Igualmente, alguém que conhecer o senhor Jesus Cristo, conhecerá a Krishna.”


Reflexão enviada carinhosamente pelo Centro Hare Krishna de Bhakti Yoga de São Paulo.
Foto: Pixabay

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