Espiritualidade do conflito

Imagem: Reprodução/Hervé Champollion/akg-images

Frei Betto

A espiritualidade de Jesus era a do conflito. O conflito marcou a sua vida do início ao fim. Do nascimento, com a fuga para o Egito, à morte na cruz. Conflitos internos, como as tentações no deserto e as crises de fé; conflitos com adversários, como fariseus e doutores da lei; conflitos com autoridades, como Herodes Antipas; conflitos com seus próprios companheiros, como Pedro; conflitos políticos e econômicos. Certa ocasião, ele ordenou que uma legião de demônios deixasse um homem e se encarnasse numa manada de porcos, que se precipitou no abismo (Lucas 8,26-39). Qual terá sido a reação do dono dos porcos?!

Jesus teve conflitos com a própria família, que achou que ele estava ficando louco. Mesmo os discípulos cederam a essa suposição ao ouvi-lo falar de sua própria morte. Pedro deu uma de mineiro, tentou pôr panos quentes: “Nada disso vai acontecer.” Jesus ficou tão irritado que chamou o amigo pelo nome do inimigo: “Afasta-te de mim, satanás!” (Marcos 8,33)

A espiritualidade de Jesus tinha como nota principal o compromisso com os pobres. Por que ele fez opção pelos pobres? Ninguém escolhe ser pobre. Todo pobre é, de fato, um empobrecido, vítima da injustiça social. A pobreza é sempre um estado de carência e não há, na Bíblia, um só versículo que diga que ela é agradável aos olhos de Deus. Pois ser pobre é estar privado dos bens essenciais à vida. E a vida é o dom maior de Deus. Portanto, a pobreza é um mal, fruto da injustiça, mas o pobre é bem-aventurado porque Deus assume a sua causa.

Uma leitura atenta do Evangelho indica que, no movimento de Jesus, só se entra sendo pobre (=marginalizado, doente, enfermo) ou fazendo opção pelos pobres. Curiosa a reação dos que não eram pobres – o doutor da lei, Nicodemos, Zaqueu, o homem rico etc. – quando encontraram Jesus: “O que devo fazer para ganhar a vida eterna?” Mesmo em se tratando da salvação, predominava o interesse individual. Ao contrário, os pobres queriam saber como assegurar vida nesta vida: enxergar, usar a mão, reviver, andar, curar a filha ou deter a hemorragia. Jesus trazia vida concreta, física, material, como sinal da vida em plenitude prometida por Deus. Nesse sentido, sua revelação de Deus foi fundamentalmente política. O Deus no qual Jesus acreditava não admite nenhuma ordem política que negue o direito à vida. “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude” (João 10,10).


Frei Betto é escritor e religioso dominicano. Recebeu vários prêmios por sua atuação em prol dos direitos humanos e a favor dos movimentos populares. Foi assessor especial da Presidência da República entre 2003 e 2004. É autor de “A Obra do Artista – uma visão holística do Universo”, “Um homem chamado Jesus”, “Batismo de Sangue”, “A Mosca Azul”, entre outros.


Fonte: Dom Total
Imagem: Reprodução/Hervé Champollion/akg-images

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