Economia de Francisco: é preciso ousadia

Por Élio Gasda

Iniciar processos, traçar percursos, alargar horizontes, criar pertenças é o desafio lançado por papa Francisco aos participantes do evento Economia de Francisco encerrado no último dia 21 de novembro. Em vídeo-mensagem afirmou:

“É tempo de ousar o risco de favorecer e estimular modelos de desenvolvimento, de progresso e de sustentabilidade em que as pessoas, e especialmente os excluídos, entre os quais a Irmã Terra, deixem de ser uma presença meramente funcional, para se tornar protagonistas de sua vida, assim como de todo o tecido social. Não pensemos por eles, mas com eles. As injustiças, as desigualdades e a exclusão são intoleráveis. A cultura do descarte deve ter os seus dias contados. Ninguém tem o direito de se sentir mais humano do que outro”.

Por tão poucos terem tanto, é que tantos tem tão pouco. Os 20% mais ricos da população mundial concentram 96% da riqueza. Imprescindível construir alternativas que superem o modelo de produção, de consumo e de concentração de riqueza capitalista.

Do local ao global é necessário repensar a economia, para além do dinheiro, da exploração do outro e da degradação ambiental. Uma economia do suficiente em termos materiais, rejeitando a ideologia do crescimento econômico ilimitado. Renunciar à tentação do consumo em consideração as futuras gerações e os limites dos ecossistemas.

Na Declaração Final e Compromisso Comum, os participantes do evento expressaram sua convicção de que não se constrói um mundo melhor sem uma economia melhor. E que a economia é importante demais para a vida dos povos e dos pobres para que todos não nos ocupemos disso.

Em nome dos jovens e dos pobres da Terra, eles apresentaram uma lista de exigências:

Que as grandes potências mundiais e as grandes instituições econômico-financeiras desacelerem a sua corrida para deixar a Terra respirar. A corrida desenfreada está asfixiando a Terra e os mais fracos;
Ativação de uma comunhão mundial das tecnologias mais avançadas para que, também nos países de baixa renda, as produções sejam sustentáveis;
Superação da pobreza energética – fonte de disparidade econômica, social e cultural – para realizar a justiça climática;
Que a custódia dos bens comuns (como a atmosfera, as florestas, os oceanos, a terra, os recursos naturais, os ecossistemas, a biodiversidade, as sementes) seja colocada no centro das agendas dos governos e do ensino nas escolas, universidades, business schools do mundo inteiro;
Proibição do uso de ideologias econômicas para ofender e descartar os pobres, os doentes, as minorias e os desfavorecidos de todos os tipos;
Respeito e garantia ao trabalho digno para todos, os direitos da família e todos os direitos humanos sejam respeitados em cada empresa, para cada trabalhadora e cada trabalhador;
Abolição imediata dos paraísos fiscais no mundo inteiro;
Criação de novas instituições financeiras mundiais e reforma democrática das existentes (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional) para que ajudem o mundo a se reerguer das pobrezas;
Adoção nas empresas e nos bancos de um comitê ético independente em sua governança com direito a veto em matéria de meio ambiente, justiça e impacto sobre os mais pobres;
Oferecer uma educação de qualidade para cada menina e menino por parte de Estados, empresas e instituições internacionais;
Dever das organizações econômicas e instituições de assegurar as mesmas oportunidades e direitos às trabalhadoras.

“Nós, jovens, não toleramos mais que sejam retirados recursos da escola, da saúde, do nosso presente e futuro para fabricar armas e alimentar as guerras para vendê-las. Queremos dizer aos nossos filhos que a guerra acabou para sempre.

Nos comprometemos a viver os melhores anos das nossas energias e inteligência para que a economia do Francisco seja cada vez mais ‘sal e fermento da economia de todos'”.

Uma economia que proteja as pessoas e a Casa Comum! Esse é o novo horizonte econômico para um mundo devastado pelo capitalismo. Que a Economia de Francisco seja o primeiro passo de uma grande travessia.


*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: ‘Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja’ (Paulinas, 2001); ‘Cristianismo e economia’ (Paulinas, 2016)

Fonte: Dom Total
Imagem: Reprodução / Naassom Azevedo / Unsplash

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