IEAB vê “razões suficientes” para o impeachment do Presidente

Em nota divulgada nesta quarta-feira, 20 de janeiro, a Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) faz duras críticas à forma como o Presidente do Brasil conduz determinados assuntos da esfera pública, entre eles, a pandemia de Coronavírus.

“O Presidente do Brasil tem se esquivado intencionalmente em tomar decisões, muitas das quais expressamente recomendadas pela ciência, para garantir que o povo brasileiro tenha a seu favor o gozo do direito mais elementar à saúde”, diz um dos trechos do documento.

Noutro, bispos e bispas da Igreja Anglicana reforçam que, na visão da Câmara Episcopal, há “razões suficientes para a responsabilização e o adequado processo de impedimento do Presidente”. Entre os motivos apontados, eles destacam o “descumprimento intencional de obrigações funcionais, a manifestação consciente de um desprezo pela vida, a defesa de torturadores e a ameaça velada de golpe nas eleições de 2022”.

Leia a manifestação na íntegra:

“…Não podemos silenciar diante de tamanhas maldades”.

O Senhor faz atos de justiça e retidão as pessoas oprimidas.
Salmo 103.6 (Livro de Oração Comum, IEAB)

O contexto brasileiro atual nos leva a uma esquina crucial em termos de ética. Para além dos desafios e das equivocadas políticas adotadas pelo governo federal no enfrentamento da COVID-19, temos acima de tudo um problema que precisa ser enfrentado com a força do exemplo e presença de Jesus. São atitudes que vão além do campo político partidário e nos desafiam em termos de nossa fidelidade ao Evangelho.

A compaixão pelo sofrimento das pessoas pobres, fragilizadas e doentes é característica que nos identifica como pessoas que estão comprometidas com a Boa Nova de Jesus Cristo. Lembremos da parábola do julgamento final onde Jesus afirma: “Digo-lhes a verdade: o que vocês deixaram de fazer a alguma destas pessoas mais pequeninas, também a mim deixaram de fazê-lo” (Mateus 25.45).

O Presidente do Brasil tem se esquivado intencionalmente em tomar decisões, muitas das quais expressamente recomendadas pela ciência, para garantir que o povo brasileiro tenha a seu favor o gozo do direito mais elementar à saúde. Tanto ele quanto seu governo têm recomendado tratamentos “precoces” sem respaldo científico, coisa que depois tentam negar, além de desestimular o uso de máscara e outras medidas de real prevenção. O recente colapso do sistema de saúde em Manaus e a informação de que o governo federal foi avisado com devida antecedência do risco de falta de oxigênio, sem nenhuma providencia preventiva revela o completo descaso com o povo a quem ele jurou servir.

Nós, bispas e bispos da IEAB, expressamos o nosso pleno apoio a todas as pessoas que trabalham no campo da ciência zelando pelo bem comum de toda a criação. Cremos que as vacinas salvam vidas. A vacinação é segura e conduzida por profissionais competentes. Ressaltamos que é muito importante que todos e todas sejamos vacinados, pois ao sermos vacinados protegemos a nós mesmos e a todos e todas. Nesse momento tão delicado da história da humanidade, sermos vacinados é uma atitude de amor para conosco e para com o nosso próximo (Mateus 22.37-39).

O descumprimento intencional de obrigações funcionais, a manifestação consciente de um desprezo pela vida, a defesa de torturadores e a ameaça velada de golpe nas eleições de 2022 já seriam razões suficientes para a responsabilização e o adequado processo de impedimento do Presidente. A misericórdia, como elemento essencial da vida cristã não pode ser confundida com cumplicidade quando é preciso assumir uma atitude profética. Jesus ensinava que as pessoas que o seguiam deviam agir entre si de forma diferente daquelas que governam com tirania, pois a marca do poder cristão é a marca do serviço (Mateus 20.25-27).

A sua declaração na manhã do dia 18 de janeiro de 2021, de que democracia e ditadura são definidas pelas Forças Armadas, é um inequívoco sinal de que o Presidente desrespeita completamente os limites constitucionais, negando a soberania popular consagrada pela longa e sacrificada luta contra a ditadura militar. A declaração representa também uma ameaça em virtude da derrota do negacionismo e perda de espaço político dentro do próprio circuito conservador que é a sua base de sustentação política.

Sentimos o cansaço que nos leva até a exaustão, mas o Espírito Santo nos move em nosso dever de denunciar tais coisas. Por estas razões, que temos repetido constantemente em nossas cartas pastorais e, também, quando expressamos nosso apoio a diversas entidades, movimentos e pessoas de boa vontade no encaminhamento de pedido de impedimento do Presidente. Não podemos silenciar diante de tamanhas maldades. Também nos distanciamos de qualquer segmento religioso que, evocando o Evangelho, legitime, apoie e estimule estas práticas cruéis, desumanas e inaceitáveis.

Câmara Episcopal

Bispo Naudal Alves Gomes – Diocese Anglicana do Paraná – Primaz da IEAB
Bispo Maurício Andrade – Diocese Anglicana de Brasília
Bispo Francisco de Assis da Silva – Diocese Sul Ocidental
Bispo Humberto Maiztegui – Diocese Meridional
Bispo João Câncio Peixoto – Diocese Anglicana do Recife
Bispo Eduardo Coelho Grillo – Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
Bispa Marinez Rosa dos Santos Bassotto – Diocese Anglicana da Amazônia
Bispa Meriglei Borges Silva Simim – Diocese Anglicana da Pelotas
Bispo Francisco Cézar Fernandes Alves – Diocese Anglicana de São Paulo
Bispo Clovis Erly Rodrigues – Emérito Diocese Anglicana de Recife
Bispo Almir dos Santos – Emérito Diocese Anglicana de Brasília
Bispo Jubal Pereira neves – Emérito Diocese Sul Ocidental
Bispo Celso Franco – Emérito Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
Bispo Filadelfo Oliveira, Emérito Diocese Anglicana do Rio de Janeiro
Bispo Renato da Cruz Raatz – Emérito Diocese Anglicana de Pelotas

CONIC com informações da IEAB
Imagem: Reprodução

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