Boas práticas CFE: Igreja Betesda e a violência contra mulheres

BRASIL-

Gisleine Reikdal, Diretora do Espelho Meu

A Igreja Betesda tem atuado na denúncia das diversas violências praticadas contra as mulheres. Violências históricas, culturais e geracionais que ceifam vidas, tiram brilho e anulam as possibilidades da convivência pacífica e amorosa entre os gêneros.

A violência contra a mulher é uma dor que mata aos poucos, dilapidando os pilares da autoestima, do amor próprio e o desejo pela vida.

Muitos caminhos nos são apresentados para o enfrentamento desta questão. Caminhos como do dualismo, da polarização, da oposição entre os gêneros e de alguns que reagem à violência com a propagação do ódio ao masculino como resposta à misoginia que ampliam o abismo entre os seres.

A Betesda, para trabalhar no combate da violência contra a mulher, escolheu outros modos para suas ações. O caminho do diálogo como espaço de transformação social e para a cura das dores geradas pela cultura da violência em ambos; na mulher e no homem, que ensinado sobre ser homem de forma violenta, além de destruir outras e outros, também tem se autodestruído. Entendemos que desta forma podemos contribuir para uma sociedade mais igualitária e pacífica.

Temos buscado uma atuação integrada no combate às violências de gênero. As ações mais imperativas e iminentes envolvem suprir as necessidades básicas das mulheres que estão em situação de violência hoje. Enquanto escrevemos este texto, ao menos uma mulher está sendo violentada.

O primeiro passo deste trabalho foi de conscientização da comunidade da fé para o tema, haja vista, que segundo pesquisas, cerca de 40% das mulheres vítimas de violência doméstica são evangélicas.

Para esse trabalho, foi lançado o Espelho Meu, uma ação do Instituto Coexistência, que evolve cerca de 100 pessoas voluntárias, não somente de membros da própria Igreja, que participaram de um curso de capacitação. O Espelho Meu tem como missão, “Despertar o olhar da comunidade para a mulher em situação de violência. Criar mecanismos para o acolhimento, auto reconhecimento e empoderamento feminino” e como visão, “Através de ações sistemáticas sermos referência no combate à violência contra a mulher”.

Um segundo passo, foi mobilizar a comunidade para apoiar de forma concreta instituições idôneas que atuam na área. Escolhemos duas Instituições, uma CDCM e um casa de passagem: o Centro de Defesa e Convivência Mulheres Vivas (Zona sul de SP) e a Casa de Passagem Rosangela Rigo, localizada no Jardim Paulistano (Zona Norte de SP).

A primeira ação prática foi realizar um mutirão para a reforma da CDCM, adequando-a à legislação de segurança e promovendo mais conforto tanto para os profissionais que lá trabalham quanto para as mulheres acolhidas pelos serviços.

Também apoiamos o Projeto “Super Mães” em parceria com o Instituto Mara Gabrili que atua com mães de crianças com deficiência, que sofrem algo a mais, incluindo muitas vezes, após violências psíquicas, emocionais e físicas, o abandono do parceiro.

As dimensões da violência perpassam muitos pilares, entre eles o pilar da autonomia financeira, por isso, mobilizamos a comunidade para a realização de cursos profissionalizantes, além do levantamento de itens de necessidades básicas para mulheres em situação de violência, que por força de autoproteção e proteção dos filhos, precisaram sair de casa somente com a roupa do corpo.

Desde o final de 2019, início de nossas atividades com o “Espelho Meu”, doamos mais de 7.500 peças de roupas, aproximadamente 760 pares de sapatos, 5.000 kg de alimentos, além 1100 unidades de produtos de higiene pessoal e 18 eletrodomésticos, que incluem geladeiras, microondas, camas e colchões para mulheres acolhidas nos dois equipamentos que apoiamos.

Com a disseminação do covid-19, necessitando o isolamento/distanciamento social, surgiram outras violências emocionais e de desequilíbrio familiar, aumentando o índice de violência doméstica. O Espelho Meu procurou atenuar essas violências.

Mulheres arrimo de família sem alimentação e sem máscaras de proteção para elas e para os filhos, necessitadas de produtos de higiene e limpeza e as crianças sem algum tipo de entretenimento como brinquedos, cadernos, lápis e livros, num período sem aulas.

Para uma melhor efetividade desta ação, o Espelho Meu formou parceria com algumas instituições que atuam junto destas famílias necessitadas doando 4.000 máscaras produzidas e distribuídas, alimentos, kits de higiene pessoal e de limpeza, brinquedos e livros. As instituições que o Espelho Meu formou parceria foram:

  • “Pagode da Disciplina” que atualmente distribui cerca de 200 refeições diárias. Com as aulas suspensas, crianças cuja única alimentação era na escola ficaram desassistidas. Brinquedos e livros para as crianças da favela “Saia Virada” Zona (Sul de SP) para esse período de isolamento social.
  • “Portal da Cidadania” que atua junto de 140 famílias em barracos.
  • “Associação Conquistando Um Espaço” que atua junto de 8.000 pessoas a partir da comunidade do Vietnã (Zona Sul de SP).
  • Também foram distribuídas máscaras de proteção para agentes de saúde das UBS, que realizam visitas domiciliares.

Entendemos que esse acolhimento é o primeiro passo para avançarmos na reflexão sobre as demais dimensões da violência. Acreditamos que não há o que se dizer sobre igualdade e justiça enquanto houver mulheres com fome, sede e frio decorrentes de situações de opressões e abusos.

No entanto, é necessário ir além. Ir além da “remediação” dos efeitos que a violência gera na vida concretas das mulheres. Razão pela qual promovemos campanhas, grupos reflexivos sobre gênero, rodas de conversa e palestras buscando a sensibilização e a conscientização das causas desta violência.

Uma grande campanha voltada a superação da violência realizada pelo Espelho Meu é o Projeto Penhas Vivas. Este projeto escolheu o caminho de lançar luz na superação da violência e não em focar nos índices da violência que apresentam sempre o número das vítimas e das violências.

Além de chamar a atenção da sociedade para o tema, desejamos com o projeto, comunicar a outras mulheres que estejam sofrendo, que é possível romper com o ciclo. O Projeto Penhas Vivas conta a história de 21 mulheres que romperam o ciclo apontando caminhos possíveis e trazendo esperança para aquelas que vivenciam a violência hoje. O número de vinte e um testemunhos é análogo à Campanha Nacional de 21 dias de combate à violência contra a mulher promovida pela ONU e pelo Direitos Humanos no Brasil e o nome, inspirado em Maria da Penha, também dá nome a uma Campanha designada “Corpos das Penhas” promovida pela CDCM que inspirou o Espelho Meu.

Por fim, desenvolvemos em nossa comunidade grupos reflexivos sobre gênero. Aqui é onde fortalecemos o diálogo como instrumento para a reflexão sobre as dimensões das violências na constituição dos seres e nas formas de relações sociais. Cremos no diálogo como caminho consistente para a construção de uma sociedade em que homens e mulheres convivam pacifica e respeitosamente, conforme Efésios 2:14 que nos diz que Cristo, que é a nossa paz, do que era dividido fez uma unidade.

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