Na fé: racismo e ódio não resistirão à solidariedade e ao amor inter-religioso

👉Com Koinonia Presença Ecumênica, em fevereiro estamos trabalhando para aumentar a conscientização sobre racismo e tolerância e como isso desafia nossa fé #RacismoIntleranciaNao📢

Rafael Soares

O contexto da pandemia do Covid-19 no ano de 2020 expôs a sociedade brasileira, suas estruturas políticas e seus extremos. Ou melhor, os limites que transparecem em uma situação de crise, de conflito ou de catástrofe.

Ficaram evidentes as desigualdades tão demonstradas em estatísticas, a partir do olhar para as pessoas que mais sofreram as consequências de uma vida permeada pela constante ameaça e contágio efetivo.

Omissão, morte e oportunismos

Financeira e politicamente ficou demostrado que o famigerado congelamento ou teto de gastos públicos (com a exceção para os gastos financeiros), a emenda constitucional 95, ou EC-95 foi uma opção perversa contra a saúde pública e todo o sistema de saúde. Ato político baseado na distorção de pagar aos bancos antes de garantir o bem-viver das brasileiras e dos brasileiros.

Decisão que não se fundamenta nem mesmo nos argumentos liberais de que o “mercado” deve regular tudo, atropelando a autonomia pública para investir no cuidado das pessoas. O Sistema Único de Saúde (SUS) tem resistido aos trancos a essa imposição, mas cada vez mais sucateado, haja vista, para não falar de tudo, o crescimento da população e o crescimento da demanda que a pandemia trouxe.

Ora, quem são as pessoas brasileiras que dependem do SUS? Todo mundo sabe, são as pessoas pobres, pretas e os povos e as comunidades tradicionais – o que se evidenciou como marca de veias expostas do racismo estrutural brasileiro.

Tudo aparente e seguindo, com a conivência dos agentes econômicos, de grandes mídias e de governo. Um silêncio omisso e fundamentalista na economia.

Ideologicamente aflorou a sandice fundamentalista do negacionismo, contra as evidências científicas de que a doença não tem tratamento, somente prevenção e cuidado, processo cuja saída possível está somente na aplicação de vacinas. Somaram-se nesse campo um conjunto de teorias da conspiração, em muito importada dos ideólogos patrocinados pelo governo dos EUA, na gestão Trump, finalmente derrotada e com mais de 400 mil mortos em sua conta, da somatória de irresponsabilidades.

Foi um campo rico de cortinas de fumaça e polêmicas em torno de iscas, ou chamadas para o debate secundário. Aqui, o mesmo governo irresponsável com a vida das brasileiras e todas as pessoas ameaçadas, fiou-se na receita trumpista, e se repetiu em um número de mortos que já passa dos 210 mil.

As mortes de Covid-19 se somaram às tantas outras de brasileiras e de brasileiros, defendendo seus direitos a viverem bem, nos diferentes lugares onde os governantes do Estado decidiram se omitir, permitindo o reino das milícias urbanas, das milícias rurais dos invasores de terras indígenas, dos matadores de aluguem.  Bem onde se esperava a proteção dos mais frágeis, operou a omissão em favor da lei do mais forte – uma marca.

Além da omissão, atuou criando desvios para ganhar posição mais à frente. Foi assim que o governo do Brasil saiu de absolutamente contra o auxílio emergencial – proposto pela sociedade civil, acolhido pela oposição e mesmo parte da situação -, para a posição falsa de autor do auxílio, acumulando politicamente para si a vitória de seus adversários. Puro oportunismo.

Ação, vida e solidariedade

Mas se as anotações da onda fatal das decisões perversas que se aprofundam em nossa estrutura social desigual e racista, foram e são inevitáveis no contexto da pandemia do Covid-19, outras ondas também vieram com força.

KOINONIA não só teve notícias de centenas de iniciativas promovidas para salvar vidas, atender famintas, criar redes de promoção de informações sobre direitos, como pode testemunhar com o seu envolvimento em diversas delas. Por exemplo, somados o Movimento d(a)os Sem-Terra, o Movimento de Atingid(a)os por Barragens e a Central de Movimentos Populares ultrapassaram o patamar de 1000 iniciativas de ajuda, para centenas de milhares de pessoas.

De nossa parte atuamos em pequenas e grandes distribuições de sextas básicas, sempre partindo da avaliação e da capacidade de organização comunitária: em Terreiros, em bairros de periferia, em Comunidades Quilombolas… Em parceria com aliadas atendemos a mais de 600 famílias.

Somem-se a essas as iniciativas que não pudemos registrar, mas de que tivemos notícias, como os jovens se organizando nas periferias para ajudar, as igrejas cristãs atuando diretamente, a lideranças de bairro exigindo ajuda governamental, as várias pessoas e organizações informando sobre como acessar o auxílio emergencial, bem como apoiando àqueles e àquelas “excluídas digitais”. E tivemos milhares de iniciativas e milhões de vidas salvas, a despeito do terrorismo e da omissão do Estado, alimentados pelo ódio e valendo-se de um discurso maquiado de discurso religioso.

O campo minado deixado até a chegada do Covid-19, de ódio entre as pessoas e de amplo ódio religioso e racismo, não contava com o efeito solidariedade. A solidariedade se impôs como modo de ação entre todo mundo, deixando deslocadas as pregações de acusação de comunismo, de partidarismo e outras sempre à mão dos autores de Fake News e suas similares.

Quem, na urgência de salvar a sua vida, de seus familiares, amigos e vizinhos parava para ouvir esses profetas do caos? Muito poucos, os idiotizados. A solidariedade se afirmou como valor universal, contra tudo e todos. Tanto que, cientes disso, a mídia majoritária parou de noticiar as iniciativas solidarias populares e cidadãs, para ater-se na tarefa de rebatizar a solidariedade para somente a solidariedade S/A, ou seja, a das empresas. Isso foi e ainda é um campo de disputas, que esperamos que ultrapasse o mero interesse pontual nas eleições de 2022.

Nossa ação, junto com outras parceiras foi de reforçar a inter-religiosidade como um testemunho de que a ação amorosa, solidária, pode acumular forças para resistir às ameaças do futuro sombrio alimentado pelos fundamentalismos.

Com mais ativismo ainda, nos jogamos na luta antirracista e contra todas a forma de ódio e intolerâncias – religiosa, baseada em gênero – , em aliança pública com expressões de fé cristãs, de espiritualidade de matrizes africana e indígena, e também com quem não tem identidade de fé. Foram atos, eventos, participações diversas virtuais e poucas oportunidades presenciais controladas.

Nossa perspectiva de ecumenismo, que em resumo é a afirmação de que todas e todos nascemos com dignidade, e de que nem ninguém e nem nada deve ficar de fora do viver bem na nossa casa comum, planeta mãe, nos ajudou a acolher diálogos e promover processos de luta conjunta com outras fés. Entre tantas, especialmente com as cristãs e as de matrizes africanas.

Assim seguimos em 2021, e queremos mais solidariedade, afeto e luta por vivermos bem.

O autor é diretor executivo de KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Doutor em Antropologia e Ogan de Camdomblé

Imagem:  www.new-indonesia.org

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