Moda evangélica, moda islâmica: empoderamento ou opressão?

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Um dia desses, depois de uma conversa que estava tendo com grandes amigas – 2 evangélicas (uma de igreja tradicional e outra de igreja pentecostal) e 1 mulçumana (praticante, sunita), 1 católica e 1 que se autointitula agnóstica, mas espiritualizada – comecei a refletir sobre o tema “moda evangélica”. Mas não queria ficar preso à uma fé. Comecei a estender essa mesma reflexão às outras: moda católica, moda islâmica, moda judaica, moda budista, e por aí vai.

Enfim, me debrucei sobre a questão das vestimentas das mulheres que frequentam determinadas religiões – das evangélica às muçulmanas, passando pelas de matriz afro.

Noto que há muito julgamento por parte da sociedade quando uma mulher decide adotar, por si própria, um determinado tipo de roupa: seja que roupa for, tradicional ou moderna, curta ou longa. A mulher é sempre objeto de acusações em suas escolhas. E isso é um fato.

Se usa saia longa e não corta o cabelo, a acusação é de que ela está vivendo “sob cabresto” de algum religioso fundamentalista. Se usa bermuda curta e calça de lycra, é porque “quer aparecer” ou não tem compostura. Mas sempre, em todo caso, ela será condenada. Os pequenos juízes do cotidiano feminino não conseguem conceber a ideia de que uma mulher pode, SIM, optar por usar uma roupa mais comprida ou uma roupa mais curta.

Cegos em seus julgamentos “perfeitos” e certos de que suas visões de mundo são as mais nobres, não conseguem admitir que a mulher que usa roupa longa ou roupa curta, saia jeans ou calça legging, pode estar tomando aquela decisão simplesmente PORQUE QUER!

Mulher pensa por conta própria, meus caros.

Na conversa que tive com essas amigas, a que professa a fé islâmica me falou algo bem interessante.

“No Ocidente, muitos veem o véu como algo opressivo; mas eu não vejo assim. Entendo que o véu ajuda até a combater a cultura de ‘objetificação’ da mulher. É algo que me orgulho de usar e não vejo como sendo imposto. Se fosse imposto, eu não usaria.”

Quando disse isso, a outra amiga que frequenta uma igreja pentecostal emendou:

“Saias não são obrigadas lá na Igreja. Nunca alguém virou pra mim e mandou eu usar uma. Mas como vi que todas as mulheres usavam – e eu não queria ficar ‘diferentona’ –, acabei adotando também. Mas isso depois de uns dois ou três anos frequentando. Hoje eu adoro. Acho que saias são libertadoras. A sociedade diz que o padrão é calça jeans? Eu quebro os padrões!”

Tudo isso já estava me fazendo rever vários dos meus conceitos. Uma fala que o véu é algo que luta contra a cultura da “objetificação”. A outra diz que saia é, de algum modo, “quebrar padrões”. Estava ansioso para ouvir as contribuições de minha amiga de matriz afro.

“Quando visto branco em um dia específico da semana e, nos demais, quando saio com minhas guias, é comum olhares jocosos. A nossa sociedade ainda não aprendeu a respeitar a mulher em suas escolhas íntimas, como é o caso da forma de se vestir. Nos julgam pela cor de nossas roupas, pelo tamanho, estampas. E para ‘fundamentar’ o julgamento, associam outros elementos, por exemplo, ‘usa saia porque é de igreja’, ou ‘usa branco porque é de terreiro’, ou ‘usa véu porque é muçulmana’. E daí? O fato de pertencermos a este ou àquele grupo não nos tira a autonomia de decidir… Sabe aqueles motoqueiros que frequentam clubes de motos? Eles perderam autonomia porque a maioria usa calça jeans e jaqueta preta de couro? Não! Simplesmente são as escolhas de cada um. Mas você nunca verá críticas contra eles ou contra outros grupos exclusivamente masculinos, como a maçonaria, que também têm normas próprias de vestimenta. Os próprios homens de muitas igrejas que só vestem terno passam ilesos às críticas. E os executivos de grandes corporações que sempre se vestem igual, também nenhuma palavra de crítica. O alvo é, e sempre será, nós, mulheres. Infelizmente!”

Que aula! Depois disso, fiquei a pensar:

Quer saber? Moda evangélica, islâmica, afro, tudo isso tem que ser respeitado. Lembrei, inevitavelmente, da passagem bíblica onde Jesus, ao ser “colocado” no papel de julgador, responde: “Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?” (Lucas 12:14).

Sempre me vem à memória da luta da mulher pelo direito de usar calça. Não custa lembrar que em 7 de novembro de 1800, em Paris, entrava em vigor uma lei que proibia mulheres de usarem calças em público. As infratoras podiam ser presas pela polícia. E era assim em quase todo o mundo. Calça era “coisa de homem” e ponto final. Quanta coisa mudou de lá pra cá. Hoje a mulher pode usar calça em qualquer lugar. Não vai ser presa por isso. Mas as que querem voltar à saia também podem fazê-lo, seja saia curta, longa, sei lá! É uma escolha dela.

Parem de querer enquadrar a mulher aos seus parâmetros. Se ela é adepta da moda evangélica, uai, qual é o problema? E se ela é adepta da moda islâmica, que isso vai influenciar na sua vida? Nada! Deixa-a andar de véu e pare de importunar! E se ela quer vestir branco e usar guias, a escolha é dela, não sua! Você também é adepto de algum tipo de moda! Mesmo que negue, certamente você tem suas preferências na hora de se vestir. Ou não? Se sim, então de fato está incluído no hall dos que se guiam por algum tipo de influência de moda.

Mulher, da próxima vez que falarem mal da sua saia, véu, ou do seu branco, pergunte: “Quem te fez juiz da minha vida?” Ou ignore, pois suas escolhas precisam ser vividas, não explicadas.

E viva todo tipo de moda, vestimenta e estilo de vida.

Texto: Ir. Ahmed

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