Lançamento da 22ª Campanha Primavera para a Vida

Direitos garantidos aos povos negros. Uma socioecologia que leve em conta a vida na Terra sem a destruição do meio ambiente e das espécies que habitam os biomas. Uma trilha de fé atrelada ao amor e à luta por justiça. Esses são os caminhos da “democracia sem fim”. E foi com base nestes três pilares que a 22ª Campanha Primavera para a Vida foi lançada na noite desta terça-feira (27), no Cerimonial Conceição da Praia.

O lançamento da 22ª Campanha Primavera para a Vida foi realizado em parceria com o parceria com o Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop) e com o Cerimonial Conceição da Praia.

Sob o guarda-chuva da temática “Andar com Fé pelos caminhos da Democracia”, a ativista Benilda Brito, o teólogo e filósofo Leonardo Boff e a jornalista Magali Cunha debateram sobre racismo, afeto, meio ambiente, fé, a atuação das igrejas na ditadura e a importância de seu papel na defesa de direitos e como tudo isso está ligado à nossa luta pelo fortalecimento da democracia, sobretudo no momento político que vivemos.

Em sua fala, Benilda vinculou o pensamento do professor Renato Noguera sobre a agricultura dos afetos e o de Lélia Gonzalez sobre como estes nos afetam enquanto pessoas humanas para falar sobre os racismos. Ela explica que assim como sementes, os afetos precisam ser regados para crescerem e colhermos alegria, amor, etc. Mas assim como os afetos, o racismo também precisa ser regado todos os dias para crescer. E ele vem sendo.

“Os racismos estruturais e institucionais só existem porque existem os individuais. E o que mais afeta o nosso povo preto são os racismos cotidiários. Porque o racismo é violência”. Ela cita o exemplo da operação policial realizada no Complexo da Maré nesta segunda-feira (26), no Rio de Janeiro, para ilustrar sua afirmação e questiona.

“Como isso te afeta? Fecharam 35 escolas, 4 postos de saúde, chegaram antes das 6h da manhã, sem mandado policial, 5 pessoas morreram, outras tantas ficaram feridas. A gente precisa falar sobre isso. Sobre a democracia da vida. E não existe democracia com racismo. O professor Florestan Fernandes já dizia: pra saber se um país é democrático, olhe as condições de vida do povo preto. A juventude vive? Tem políticas públicas? O acesso a direitos é o mesmo? Todo mundo tem um lugar de fala. Qual é o seu? É o de uma pessoa antirracista? Indignada com o racismo? Isso precisa te afetar”.

Boff, a socioecologia e a democracia a partir dos pobres

Em sua fala, Leonardo Boff não destoou de sua trajetória. Defendeu a busca por uma democracia em sua definição mais antiga, baseada em tudo aquilo que interessa ao povo. “Tudo deve ser discutido e decidido pelo próprio povo. Na democracia que temos, quem está lá agora representa os descendentes da Casa Grande. Um projeto entre eles. Nunca fizeram um projeto que incluísse todo mundo.”

E complementa. “Os analistas da nossa democracia dizem. ‘Se nós compararmos a nossa democracia real com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, com o respeito à nossa Constituição, com a Justiça Social, ela é antes uma farsa.’ Por isso a maioria está marginalizada.”

Para ilustrar uma democracia mais justa, Boff evoca um discurso que nasce na América Latina: Direitos Humanos sim, mas partir dos últimos, não dos burgueses. “Nosso direito básico é o direito à vida, aos meios básicos da vida – o trabalho, a alimentação, a casa, a saúde – a partir de baixo. Envolvendo todos os demais. Começa na família, na comunidade, no sindicato, em todas as partes, até chegar no aparelho de estado.”

Ele relembra que está há mais de 20 anos lutando por uma democracia socioecológica: social, envolvendo todo mundo; e os novos cidadãos, que é a natureza, a Mãe Terra. “A ONU já definiu os direitos da Mãe Terra. Temos que incorporar nossos irmãos e irmãs da Terra. E a democracia vai crescendo e se enriquecendo. O dia que nós descobrirmos que só temos uma Casa Comum, a natureza incluída, e nos aceitarmos como irmãos e irmãs, aí sim vai ser a democracia planetária. Esse é o nosso grande sonho.”

As igrejas evangélicas e a ditadura militar

O ato de abertura da 22ª Campanha Primavera para a Vida foi marcado também pelo lançamento do livro “As igrejas evangélicas na ditadura militar: dos abusos do poder à resistência cristã”. A jornalista Magali Cunha, convidada da Campanha, é uma das autoras do livro e falou sobre o processo de escritura da obra e também do que ela significa. Ela cita o recente movimento do Governo Federal para silenciar as informações que foram levantadas pela Comissão Nacional da Verdade.

“Precisamos cobrar que o relatório da CNV saia do site onde ele está enterrado e que essa documentação volte à disposição das pessoas. E que haja políticas de reparação, que façam com que essa memória não morra. Ainda temos feridas abertas. Não é à toa que a polícia entra na Maré desse jeito. A ditadura está muito viva. E porque ela não morreu é que temos uma polícia que tortura e mata, e que temos políticos exaltando torturadores”.

No momento em que anuncia o lançamento do livro, Magali avalia que, com o protagonismo que as igrejas evangélicas estão tendo de 2019 pra cá, é muito importante acionar a memória de que essas mesmas igrejas tem uma participação política com defesa de Direitos Humanos e colocando a vida no compromisso dessa defesa.

Ela reforça que nós precisamos dessa memória para que não mais aconteça uma ditadura militar no Brasil. “É importante que as pessoas aprendam dessa memória, cultivem essa memória, e façam os nomes dessas pessoas que deram as suas vidas pelos direitos humanos no nosso país serem exaltados também. Andar com fé pelos caminhos da democracia, no sentido cristão, é levar adiante essa memória.”

O livro pode ser baixado aqui.

Em alinhamento incondicional ao momento político vivido no Brasil, o tema escolhido para esta edição é “Andar com Fé pelos caminhos da Democracia”. O foco da Campanha neste ano é trazer a discussão sobre os ataques constantes contra as instituições democráticas do Brasil, além de ampliar a articulação com as bases das Igrejas através da reflexão sobre demandas sociais vivenciadas pela CESE por meio da sua Diaconia pela defesa de direitos.

Sônia Mota, Diretora Executiva da CESE, relembra que, dos 50 anos que a CESE vai fazer no ano que vem, em 22 deles a organização celebrou a chegada da primavera com essa campanha. “A Primavera para a Vida! Sempre trazemos algum tema importante para que a gente possa refletir e esperançar. Esse ano isso é ainda mais significativo para nós. A fé tem um poder incrível de nos fazer saltar grandes abismos existenciais. Nós entendemos que só haverá democracia quando todas as pessoas tiverem vida digna em nosso país. Essa é a democracia que queremos.”, afirma.

Bianca Daébs, Assessora para Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CESE, pontua que a CPPV 2022 promoveu um encontro de gerações e trajetórias que nos inspiram a esperançar um novo tempo. “Foi um evento maravilhoso e lindo.  Magali fez um resgate histórico da trajetória da CESE e do compromisso dos movimentos Ecumênicos com a Democracia e com a pauta de Direitos Humanos. Benilda fez uma fala sobre esse diálogo da fé não apenas com as religiões de matriz africana, sobretudo com a Vida do Povo Preto. E Boff trouxe o legado histórico e inspirador da Teologia da Libertação e acrescentou o compromisso com as questões ambientais. Então às vésperas de uma eleição importante para o processo democrático no Brasil, tivemos ali um marco histórico!”.

Veja mais fotos do evento.

Assista a transmissão completa do lançamento da 22ª Campanha Primavera para a Vida. 

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