Ecos da Pedagogia dos Aços: outros contornos da luta pela terra no Brasil

CESEHá 28 anos, jornais e noticiários de todo o mundo estampavam em suas manchetes o retrato da brutalidade contra os trabalhadores do campo. Imagens de inúmeros caixões e covas abertas deram a dimensão do que foi o crime – um dos mais violentos contra camponeses/as em todo o planeta. No dia 17 de abril de 1996, cerca de 1500 famílias que compunham o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seguiam em marcha no estado do Pará foram surpreendidas pela ação de policiais militares na altura da chamada curva do S, no município de Eldorado dos Carajás, sudeste do estado. Naquele dia, os tiros, as bombas, os golpes de foice e facão da polícia tentaram calar a resistência dos mais pobres e a coragem de quem luta pela dignidade. Foram 69 pessoas feridas e 21 assassinadas, 19 delas no próprio local.

No entanto, dos mais de 150 policiais envolvidos na ação e da anuência do governador e do secretário de segurança do Pará na época, que autorizaram o uso da força policial, apenas duas pessoas foram condenadas pelo crime. O massacre de Eldorado dos Carajás, como ficou conhecida a chacina, se tornou um triste símbolo da crueldade e da injustiça que rondam a luta pela terra no Brasil. Como parte do processo de memória e busca por justiça, o dia 17 de abril se tornou o Dia Internacional da Luta Camponesa. No Brasil, a data também marca o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Durante todo o mês, movimentos sociais do campo e da cidade realizam atividades, protestos, ocupações e resgatam o massacre como um exemplo de um passado que não deve se repetir.


Marchar rumo a um Brasil popular

“O sonho vale uma vida?
Não sei. Mas aprendi
da escassa vida que gastei:
a morte não sonha”*

“Marcha sempre foi um instrumento de luta, de resistência da classe trabalhadora. Ela ajuda a alimentar o nosso sonho e a nossa esperança”. É com essas palavras que Evanildo Costa, da direção nacional do MST-BA, traz a memória dos mártires de Carajás e destaca o papel da organização dos Sem Terra em defesa da Reforma Agrária. Desde o dia 09 de abril, Evanildo se soma a cerca de outros/as 3 mil trabalhadores/as que seguem em marcha na Bahia, num percurso que saiu de Feira de Santana e avança rumo a Salvador, para dialogar com a sociedade e pressionar o governo do estado por mais direitos para os/as trabalhadores/as rurais.

A marcha na Bahia faz parte da Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária, realizada pelo MST em todo o país. Com o lema “Ocupar para o Brasil Alimentar”, o movimento irá realizar até a próxima sexta (19) um conjunto de ações em todas as regiões do Brasil em memória aos mártires de Eldorado dos Carajás, para cobrar a realização da Reforma Agrária e celebrar os 40 anos de lutas que o MST completa neste ano. Já foram mais de 30 ações em 14 estados do país, mobilizando mais de 20 mil famílias Sem Terra.

“A nossa esperança nessa marcha é que nós possamos chegar em Salvador e termos bons resultados. Por parte do Governo Federal, que ele possa anunciar medidas importantes para desenvolver os assentamentos, ter assistência técnica, habitação para as famílias que estão nos assentamentos; que também possa ter anúncios importantes na educação através do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) e que crie uma política de orçamento para poder desapropriar terra para assentar as famílias que estão ocupadas. Com o governo do estado, já iniciamos um processo de negociação e a nossa expectativa é que chegaremos lá já com a audiência com o governador”, destaca Evanildo.

O dirigente também ressalta que as ações no estado buscam chamar a atenção da sociedade para a violência no campo, que tem chegado num ponto crítico nos últimos anos.

“Essa marcha também tem o objetivo de denunciar as milícias armadas, uma organização criminosa que é organizada através de alguns prefeitos, deputados, políticos, também fazendeiros e a turma ligada ao agronegócio que vêm promovendo a violência do campo, matando o trabalhador, como fizeram com a indígena Nega Pataxó”, salienta Evanildo.

Defender a terra é defender a vida

“Eles rondam o muro das leis
e ataram no peito
uma bomba que pulsa:
o sonho da terra livre”*

O avanço contra as terras, direitos e vida dos povos indígenas é um dos marcos da luta pela terra no Brasil. Nos últimos anos, a escalada da violência contra esses povos e a busca pela retirada dos seus direitos é uma expressão da aliança entre setores do poder público, agronegócio e capital estrangeiro no país. É o que analisa Agnaldo Pataxó Hãhãhãe, coordenador-geral do Movimento Unido dos Povos Organizados Indígenas da Bahia (Mupoiba).

“Nós, povos indígenas do Brasil, temos o grande desafio de compreender e formular a resistência contra as forças anti-indígenas no país, que se articulam dentro do Brasil e também com forças estrangeiras, forças ligadas à questão antidemocrática, ao apoio ao racismo e à intolerância. Se articulam entre eles fortalecendo-se no agronegócio e se organizando em vários setores do poder brasileiro, especialmente no Poder Legislativo, onde esses grupos se articulam na formação das leis e quebram alguns marcos regulatórios de avanços para demarcação dos nossos territórios”, explica o cacique.

A ofensiva contra os povos indígenas ganhou força com a proposta do Marco Temporal, cujo veto do presidente Lula foi derrubado pelo Congresso no ano passado. De acordo com Agnaldo, o movimento indígena entrou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal pedindo a anulação da votação do Congresso por se tratar de uma matéria inconstitucional. “O Marco Temporal destrói toda a demarcação de nossas terras, então não há como nós, povos indígenas do Brasil, obedecermos a uma lei absurda e inconstitucional como essa”, ressalta.

Entre os dias 22 e 26 de abril, milhares de indígenas, de centenas de povos diferentes, se reunirão em Brasília (DF) no 20º Acampamento Terra Livre. Com o lema “Nosso Marco é Ancestral: Sempre Estivemos Aqui”. O encontro ecoa para o Brasil e para todo o mundo as vozes de resistência dos povos originários do país em defesa do meio ambiente e dos direitos dos povos indígenas. Agnaldo Pataxó ressalta, no entanto, que essa é uma luta ampla e convoca toda a sociedade para se somar a ela.

“Esse é o chamamento que nós fazemos para toda a sociedade baiana e brasileira. Para se somarem com a gente na proteção ao meio ambiente, na proteção das nossas florestas, dos nossos rios, da nossa fauna, flora, e tudo que há no nosso meio ambiente. Porque só assim nós vamos ter vida futura, preservar as nossas futuras gerações. E isso passa pela demarcação dos nossos territórios indígenas e de todo o povo originário”.

*Versos do poema “Pedagogia dos Aços”, de Pedro Tierra, escrito logo depois do massacre de Eldorado dos Carajás em homenagem aos mártires.

Fuente: https://www.cese.org.br/

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