O sorriso de Camilo

Camilo Torres

URUGUAY-

Dahiana Barrales e Diego Pereira Ríos

O sorriso de Camilo tem algo de contagioso. Algo que ainda não sei exatamente o que é. Mesmo conhecendo a fatalidade do seu fim, o seu sorriso não se desvanece. Como um tiro ao vento, o sorriso de Camilo atravessa o tempo e o espaço, e um dia chegou até mim. Quando isso aconteceu, eu nem sequer sei onde estava. Suponho que eu estava perdido, como tantos jovens que renunciam aos seus grandes ideais de liberdade e fazem um pacto com o mundo. Nesse tempo, o sorriso de Camilo seduziu-me e fez-me interessar pela sua figura, depois pela sua pessoa, e hoje é o seu legado que continua a conduzir-me. Mas nada do que eu possa pensar hoje pode ser separado desse sorriso. Sim, esse mesmo sorriso estampado no rosto que me olha a partir das suas fotografias. Aquele sorriso do sociólogo, do político, do padre, e que ele manteve até ao dia em que vestiu o uniforme de guerrilheiro. Esse sorriso me contagio alguma coisa. Mas eu não sei o que é.

Quanto amor emana do sorriso de Camilo, amor que eu recebo e tento dar, amor que me ajuda a perceber que tal como ele, as pessoas são, são e vivem, com os outros e para os outros. Amor que pode ser aperfeiçoado, é claro, e amor que em Camilo se traduz na sua eterna entrega. Camilo não nasceu guerrilheiro, Camilo tornou-se guerrilheiro porque as condições o exigiam e porque tinha uma mãe, Isabel, que o acompanhava e apoiava, mesmo quando ela sabia que ele podia perdê-lo. Assim, o sorriso de Camilo não é só seu, é da sua mãe, o das pessoas que os acompanharam em Lovaina, na Colômbia, e o nosso, daqueles de nós que continuam a acompanhá-lo hoje. O seu sorriso reflecte-se no nosso quando ouvimos canções e histórias sobre ele e quando queremos ser um pouco como ele.

Camilo Torres con campesinado colombiano (Wikipedia)

O sorriso de Camilo convida-nos a olhar para o mundo com esperança. Mas como podemos falar de esperança com um final triste que fez o seu movimento vacilar? Que esperança, quando todos os seus esforços pareciam em vão? Sim, a lógica fria produz estes desânimos. Mas o sorriso de Camilo pode fazer mais. Exorta-nos a olhar para o mundo a partir de baixo, dos subjugados e oprimidos, e a encorajar-nos a fazer mais. É uma provocação para renunciar à vida fácil e confortável de estar disposto a ganhar tudo, ou perder tudo. Sim, mesmo para perder a própria vida. É difícil chegar a esse extremo. A verdade é que é difícil para mim pensar que um dia eu estaria disposto/a a fazer o mesmo. Oh, quanto eu gostaria! Este pensamento traz-me uma certa tristeza por não saber si serei tão corajoso/a. Mas lá, de cabeça baixa, levanto os olhos e vejo o sorriso de Camilo que me enche de um “algo” que não sei o que é. Uma imensa alegria e loucura inunda-me e encoraja-me novamente e diz-me que, custe o que custar, temos de continuar a lutar. O sorriso de Camilo contagia-me com a esperança, em mim, nos outros, de que pode chegar um momento melhor, mas temos de forjá-lo.

O sorriso de Camilo lembra-me que mais do que uma pessoa, Camilo é um projeto. Um projeto que começou com ele, mas que continua em nós, os outros Camilos e outras Camilas. É um projeto fundado na rebeldia de amar o nosso próximo, muito mais do que nós próprios, e de querer fazer-lhes justiça. Isto implica continuar o seu trabalho, seguir os seus passos, caminhar com ele e passar o tempo a quebrar barreiras. A barreira mais complexa é a barreira do medo: é paralisante. Muitas vezes gostaria de seguir ao Camilo até às montanhas e sentar-me lá para o ouvir, mas é difícil para mim deixar o meu conforto, as minhas fracas seguranças. É por isso que, enquanto estudo e leio sobre ele, enquanto procuro e aprendo com ele, trabalho no silêncio do meu eu interior sobre a resistência que debo fazer a este mundo de não estar satisfeito/a, de não ser imune ao sofrimento dos outros. Resistência que deve tornar-se rebelião de amor.

Neste momento de aparente incerteza generalizada, o sorriso de Camilo lembra-me onde estou e para onde quero ir, não é poca coisa, né? Quão grande é o peso para Camilo! O seu olhar insiste em que eu não me afaste, que não me perca, que não perca a esperança, mesmo na aparente derrota. Talvez tenha muitos Camilos e Camilas cujos sorrisos são aborrecidos, preocupados, ou mesmo distraídos. Camilos e Camilas prontos para serem formados na escola da vida, do caminho da solidariedade, e eles estão apenas à espera de uma oportunidade. Insisto, Camilo não nasceu guerrilheiro, e procurou responder ao grito dos mais fracos de muitas maneiras. Ele soube vislumbrar as necessidades dos outros, e de si próprio, e gerar um compromisso que o tornou no que é hoje. Ele procurou de muitas maneiras, encorajou outros e espalhou a sua sede de justiça. Mas, naquele momento, não era suficiente. Foi por isso que se viu obrigado a responder de outra forma. Era uma exigência do seu amor eficaz. Quantos Camilos y Camilas seremos hoje neste processo de reconhecimento de nós próprios? Se nos encontrássemos e nos reuníssemos, pordemos ver a confusão que fazemos…

Camilo Torres Restrepo (Bogotá, 3 de Fevereiro de 1929-San Vicente de Chucurí, 15 de Fevereiro de 1966) foi um padre católico colombiano, sociólogo, ativista, político, pioneiro da Teologia da libertação. Depois de ter sido ordenado sacerdote em 1954 e de completar a sua formação com estudos de sociologia na Bélgica (1954-1959), participou na fundação da Faculdade de Sociologia da Universidade Nacional da Colômbia, onde leccionou de 1959 a 1962. Preocupado desde a sua juventude com as profundas desigualdades sociais, a personalidade carismática de Camilo Torres, a coerência da sua mensagem progressista e as suas iniciativas a favor das classes mais desfavorecidas tinham feito dele, desde o seu regresso ao país, uma figura de grande relevância. A sua expulsão da universidade (1962) aumentou a sua projeção pública e marcou o início de uma aproximação a posições revolucionárias, que culminou com a sua saída do sacerdócio e a sua entrada na guerrilha do Exército de Libertação Nacional (1965). Chamado por muitos de “profeta da libertação”, foi morto pelo exército colombiano apenas um ano mais tarde, no seu primeiro confronto armado.

Dahiana Barrales es uruguaya de 29 años, Licenciada en Ciencias Antropológicas (2018) por la Universidad de la República de Uruguay. Actualmente se encuentra desarrollando su maestría en Historia y Memoria en la Universidad Nacional de La Plata. Su línea de investigación refiere a los vínculos entre religión, memoria y política en las religiones de matriz africana y en el cristianismo liberacionista latinoamericano de las décadas de 1960 y 1970. Contacto: dahiabarrales@gmail.com

Diego Pereira Ríos es uruguayo de 41 años, Profesor de Filosofía yReligión en Enseñanza Media. Maestrando en Teología Latinoamericana en la UCA de El Salvador. Miembro de Amerindia Uruguay, de la Comunidad Bremen-Marcelo Barros de Brasil, miembro de la Red Crea Cómplices Pedagógicos para América Latina, miembro del Proyecto “Ágora dos habitantes da Terra”. Autor del libro “La fuerza transformadora de la esperanza” (Nueva Visión, 2016) y “En un camino liberador desde el Sur” (Rumbo, 2020). Contacto: pereira.arje@gmail.com

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